Porque estou a mudar a forma como trabalho com o corpo

01-04-2026

Este artigo nasce de uma mudança que foi acontecendo ao longo do tempo, a partir daquilo que vivi e da forma como comecei a olhar para o corpo de outra maneira. Durante muitos anos trabalhei mais focada no físico, mas fui percebendo que isso nem sempre é suficiente. Hoje, vejo o corpo como um todo, onde aquilo que vivemos e não conseguimos integrar tem um impacto direto na forma como ele se manifesta.

Porque comecei a olhar para o corpo de forma diferente

Daqui a cerca de três meses, faz dois anos que o meu pai partiu, com 59 anos. Exatamente nove anos depois da minha mãe, com 51 anos de idade.

E, de alguma forma, foi esse período da minha vida que começou a mudar profundamente a forma como olho para o corpo.

Durante o último ano de vida do meu pai, acompanhei de perto a doença dele, um mieloma múltiplo, e todo o processo que veio com isso. Não só ao nível físico, mas sobretudo naquilo que não se vê de forma tão evidente: a forma como lidamos com o que nos acontece, o que conseguimos (ou não) integrar, e o impacto que isso tem no corpo.

E foi aí que comecei a observar algo que, até então, não estava tão claro para mim.

O corpo não responde só ao que é físico

O corpo não responde só ao que é físico

 E o do meu pai também não respondeu...

Há experiências que não são totalmente processadas no momento em que acontecem. Há emoções que ficam em suspenso, estados internos que se prolongam no tempo, e uma espécie de carga que o corpo vai acumulando, não só ao nível muscular ou estrutural, mas também no sistema nervoso e no campo energético.

E isso não desaparece.

Vai-se organizando no corpo, influenciando a forma como sentimos, como reagimos e até como o próprio corpo se regula.

Ao mesmo tempo, eu continuava a acompanhar pessoas nas minhas consultas. E comecei a reconhecer este mesmo padrão no meu trabalho.

Alívio físico… mas sem uma mudança verdadeiramente sustentada.
Sintomas que melhoravam, mas voltavam.
Como se o corpo estivesse a adaptar-se, mas não a integrar aquilo que estava na origem.

E foi aqui que algo começou a deixar de fazer sentido para mim. Comecei a perceber como os pensamentos e as emoções influenciam o nosso corpo, como reprimi-las pode adoecer o corpo, e como os traumas antigos que ficam por integrar se manifestam na nossa vida.

Foi então que procurei saber mais. Apesar das dezenas de formações que já tinha feito ao longo de mais de 20 anos, voltei novamente a investir em mim e nos meus pacientes. Fiz várias formações com grandes profissionais de saúde em Portugal, Espanha e Brasil, onde consegui ir mais profundamente à raiz do problema e comecei a trabalhar o corpo de uma forma diferente.

A Osteopatia continua a ser uma base importante no meu percurso, e ainda hoje trabalho com abordagens como a Sacrocraniana e a Terapia Miofascial. Mas comecei a sentir que, por si só, já não responde a tudo aquilo que vejo no corpo.

Porque há uma parte essencial que fica de fora, se olharmos apenas para o físico.

Foi a partir desta perceção que o Método Corpo Integrado começou a ganhar forma.

Não como uma técnica nova, mas como uma forma mais completa de olhar para o corpo.

Para mim, um Corpo Integrado não é um corpo "sem dor" ou "alinhado".

É um corpo onde há capacidade de sentir sem ficar bloqueado.
Onde o sistema nervoso consegue sair de estados de defesa mais facilmente.
Onde a energia não fica presa em determinados pontos ou padrões.
E onde aquilo que foi vivido pode, aos poucos, ser processado, em vez de continuar a manifestar-se através do corpo.

Porque quando isso não acontece, o corpo adapta-se… mas não resolve.
E essa diferença é tudo.

Neste momento, sinto que estou numa fase de transição.

A minha forma de trabalhar está a mudar, não de forma abrupta, mas de forma consistente. Há um movimento natural a acontecer. De sair de uma abordagem mais focada no físico, para um trabalho cada vez mais integrado e profundo.

E, acima de tudo, há uma certeza que ficou muito clara para mim:

não podemos separar o corpo daquilo que vivemos.

E talvez o verdadeiro trabalho não seja apenas aliviar o que dói,
mas permitir que o corpo deixe de carregar aquilo que nunca conseguiu integrar.

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